← Voltar ao blog23 de junho de 2026 · por Valter Costa

Estamos formando crianças e jovens dependentes de aprovação?

Estamos formando crianças e jovens dependentes de aprovação?

Existe uma cena cada vez mais comum no esporte de base: o jogo termina, a criança sai da quadra e, antes mesmo de beber água, procura alguém na arquibancada. Ela não quer saber se evoluiu. Não quer saber se tomou boas decisões. Não quer saber se se divertiu. Ela quer saber: "Você viu?". E a pergunta escondida é outra: "Eu fui suficiente?".

A geração que tem medo de errar

Nunca tivemos jovens tão conectados. Nunca tivemos jovens tão estimulados. E, paradoxalmente, nunca tivemos jovens tão ansiosos. Estudos como os de Jean Twenge apontam crescimento consistente nos índices de ansiedade entre adolescentes nas últimas décadas. Jonathan Haidt discute como a superproteção e a cultura da evitação do desconforto têm tornado jovens menos tolerantes à frustração.

E no esporte isso aparece de forma muito clara nas crianças e jovens que têm medo de errar, jogam para não falhar, evitam tentar algo novo, se desesperam quando são substituídas e medem seu valor pelo tempo de jogo. Mas a pergunta mais importante é: de onde isso vem?

O pai/mãe torcedor(a). O pai/mãe técnico(a).

Sem perceber, muitos adultos transformaram o esporte infantil em um ambiente de validação, com cobranças ao rendimento precoce, questionamentos dos minutos jogados, avaliação do(a)s treinadore(a)s pelo placar e comparações dos seus filhos com outras crianças. O problema não é amar o filho. O problema é transferir para ele a ansiedade adulta por resultado.

O que a ciência nos diz sobre motivação

A Teoria da Autodeterminação, de Deci e Ryan, mostra que motivação duradoura nasce de três pilares: autonomia, competência percebida e pertencimento. Quando a criança sente que joga apenas para agradar, a motivação deixa de ser interna e passa a ser validação externa. E motivação baseada apenas em aprovação é frágil: dura enquanto há aplauso. Quando há crítica, ela desmorona.

Quando a escola perde protagonismo

Isso vem dando espaço a outro fenômeno preocupante, em que as escolas se tornam reféns pedagógicas do desejo das famílias e passam a:

  • Ajustar a metodologia para agradar;
  • Evitar confrontos educativos;
  • Priorizar resultado para manter matrículas;
  • Ceder à cultura do "meu filho ou filha precisa jogar mais".

Quando isso acontece, a escola deixa de participar da educação qualitativa e passa a apenas atender expectativa. E educação não pode ser terceirizada à ansiedade coletiva.

Enfim, proteger o processo é proteger a criança. Porque resultado imediato forma estatística. Processo bem conduzido forma caráter: crianças e jovens resilientes, autônomos e felizes.

Boa semana a todos e todas! Viva o esporte e bons ambientes esportivos!

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